domingo, 17 de abril de 2011

Marcellus, o Jaguar impiedoso




Nos mais pacatos meios se escondem os monstros mais cruéis e os mais implacáveis justiceiros e vingadores. Nasci na cidade, Marcellus Valério, criado dentro dos valores mais cristãos conhecidos pela sociedade. Se tornando um rapaz justo, conhecedor da "verdade", como alguém que devesse seguir as mais severas leis, divinas e humanas, para ter uma boa vida, um bom descanso no fim desta. Marcellus entendia que deveria viver com prudência, justiça e autoconsciência. Lutar por essa mesma justiça era fundamental, ser bom não bastava, precisava fazer o bem aos que o rodeavam e buscar sempre mais pessoas a esta bondade que ele imaginava que devia estar no interior de toda pessoa. Intrigado ele saiu de casa aos dezesseis anos, querendo se conhecer melhor e amadurecer suas idéias filosofias.


Em uma pequena e pacata cidade distante, a cidade Dom Corleone, Marcellus começa o seu processo de entendimento do mundo, da vida, leitura de alguns livros, histórias do passado, ficções inspiradoras e uma forte literatura que o transformaria naquele que lutaria por um novo ideal de justiça e liberdade. Na cidade, por não ter contato com as outras pessoas, ser um jovem silencioso e quieto, quase reprimido, ele passou a ser conhecido pelo que o observavam, ou os que não o costumavam a ver pelas ruas, por Jaguar, todos imaginavam que ele fosse um jovem com alguma história, algo como um monstro que tivera sido enclausurado no homem por conta de violências passadas. Mal sabiam eles que o monstro jamais tivera se mostrado, mas estava mesmo enclausurado, esperando o soar dos sinos da igreja dizendo a hora de se rebelar.


Em suas leituras e na sua vasta biblioteca criada com o passar do tempo, Marcellus começou a ver que não podia se conter, não podia ser apenas um homem que luta por justiça por meios burocráticos e que talvez esses meios nem sejam eficientes. Após alguns anos afastado dos valores e das realidades ensinadas por sua família, ele começou a se soltar, perceber em si um ser capaz de mudar, de revolucionar, mas que acima de tu devia ser ativo, dar a cara a tapa e defender aqueles que precisam de ajuda. Tanto silêncio e isolamento criaram um homem de boa cultura, que conhecia muito, mas criaram também um monstro vingativo e impetuoso.


Um dia, bebendo sozinho em um bar, o já não tão jovem rapaz olhava uma discussão em casal, casal este que ele observava do sótão de sua casa, assim como toda a cidade. Durante a discussão o homem saca uma arma, aponta para a mulher, não chega a atirar, mas dá uma coronhada na dama. Com a frieza de um verdadeiro jaguar que observa sua presa, Marcellus saiu do bar, foi até sua casa e empunhou um punhal que ganhou do seu avô. Sentou-se no sótão a olhar a rua e esperou, sentado como se todo o tempo do mundo fosse apenas um trem passando pela estação, movido por uma espécie de sentimento de médico e monstro. Quando o homem saiu sozinho do bar da cidade, Marcellus desceu a escada, colocou o punhal na parte de trás da cintura, abriu a porta e a fechou, como se estivesse apenas indo fazer uma caminhada noturna, apenas para pensar um pouco. Confirmou que o homem fazia o seu caminho normal até sua casa, passando por uma rua mal iluminada, ao entrar naquela rua, um dos dois, Marcellus ou o homem não sairia vivo dali.


Ao entrar pela rua, sem olhar envolta, apenas pensando na sua presa, Marcellus empunhou com firmeza o nobre punhal e se dirigiu de forma rápida e impetuosa até o homem, sem pensar lhe fez duas incisões, uma entra a quarta e a quinta costela direita e outra na parte de trás do braço do homem que caiu imediatamente, já com dificuldades de respirar. Marcellus o segurou pelos cabelos, olhando nos olhos lhe disse: "Você não está morrendo atoa, você vai morrer, por ser um mau marido, não saber usar sua inteligência e sabedoria, agredir sua mulher e principalmente, porque você é um monstro vil que não merece viver em meio a pessoas."


Após estas palavras Marcellus introduziu lentamente o punhal no pescoço do homem, pegou a arma que ele levava na cintura, como sinal de virilidade, ou soberania. Pegou novamente a cabeça do homem que já agonizava e o fez olhar uma ultima vez para ele, como quem quer que o homem saiba quem o esta matando. Colocou a arma na mão esquerda do homem, a colocou na altura da cabeça e disparou. Após verificar que o homem já não respirava e antes que toda a cidade pudesse se juntar para constatar o acontecido, ele caminhou até a casa do homem, olhou em direção a casa, sem palavras, aquele olhar já dizia que o Jaguar havia justificado o sofrimento daquela mulher e daquela família. Passada algumas horas, de forma discreta como sempre ele voltou para casa, como se nada tivesse acontecido.


Na manhã seguinte o senhor Valério se apresentou no café da cidade, comeu sem falar nada, mas sentindo com mais profundidade o sabor de tudo que comia. Enquanto desfrutava de sua refeição ele ouvia os comentários das pessoas que falavam da morte cruel e fria que ocorrera na noite passada, sem fazer a menor idéia do que poderia ter acontecido. Alguns instantes a mulher, como que por uma questão de educação veio até o senhor Valério lhe convidar para o enterro de seu marido. Com a ajuda de sua leitura sobre psicologia, ele percebeu no olhar daquela mulher um ar de satisfação, apesar dos olhos ainda vermelhos pelas lágrimas. No enterro, como a fera após se alimentar, o culto homem olha ao longe a cidade amedrontada sem entender os motivos da morte, mas sente dentro de si um sentimento de arte recém terminada.


Com o passar do tempo, sem saber exatamente o que aconteceu naquela noite, ou o porque da morte cruel e macabra daquele homem, a cidade cria uma série de possibilidades, mas sem jamais cogitar o nome do senhor Valério, um homem que parecia nem mesmo fazer parte da cidade, apenas com algumas poucas aparições publicas, mas nenhuma atividade cidadã. Mesmo assim Marcellus e o Jaguar se sentiram como se já tivessem feito tudo que deveriam fazer naquela cidade, já havia se encontrado e percebido o que devia fazer no resto ou em toda sua vida. Durante a noite ele saiu de casa, apenas com algumas roupas e o seu afiado punhal que serviria como o martelo no julgamento dos que abusassem ou entendessem de forma errada a sua liberdade. Ele passou uma ultima vez na frente da casa da mulher que salvou, ela na janela o viu, direcionou a ele um olhar... um olhar profundo, quase como se dissesse que sabia que ele era mesmo o homem que a teria salvo do monstro que vivia com ela, mas não olhava com condenação, mas como uma forma de agradecimento. Com aquele olhar ele começou uma viagem que ainda o levaria a redescobrir algumas vezes o conceito de liberdade, justiça e pureza.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mestre Sombra, o sabio dos ventos

A pessoa não escolhe ou pede para nascer, mas sempre chega um momento na vida, no qual você escolhe se quer viver ou não. Chega sempre o momento ou você escolhe como quer viver e como quer morrer. Uma decisão sabia a esse respeito depende não apenas do que você quer, ou do meio em que vive, mas da forma como você se conhece, a forma como você se encontra e se entende.

Macena nasceu em um quilombo, no interior do país, muito distante de Judas, mas existem coisas que parecem predestinadas, historias escritas esperando apenas o tempo para se tornar realidade. Filho de um homem que ele nem mesmo sabia o nome, Macena cresceu apenas sob os cuidados de sua mãe, uma mulher pura, que apesar de pouca instrução era muito sabia. Até os seus quatorze anos Macena ouvia diariamente a pergunta humilde de sua mãe, "filho, quem é você?". A mãe dele viera a falecer sem que ele pudesse encontrar a resposta, ou mesmo entender o que ela realmente queria dizer com esta pergunta.

Com a morte da mãe Macena simplesmente se calou, não falava mais, não chorava, não ria, apenas observava a vida a seu redor. Tendo aquela sutil pergunta ecoando na sua mente, com a imagem intacta de sua mãe na memória. O silêncio daquele jovem era diferente, não era um silêncio de medo ou submissão, mas apenas o silêncio que observava, que buscava em cada sutil ação as resposta para a pergunta da mãe e que agora se tornou sua própria pergunta.

Quando a mãe de Macena faleceu um tio que vivia em uma cidade próximo resolveu assumir a educação daquele adolescente, ele seria não apenas o tio, mas o Mestre Sombra, aquele que ensinaria a Macena, não quem ele é, mas como ele encontraria as suas respostas, mesmo sem saber os questionamentos que rondavam a mente do jovem. Em todo o tempo de instrução e de vida juntos, Macena jamais trocou uma palavra com o seu mestre, apenas os olhares e ouvidos atentos naquele que lhe ensinava. Com o passar do tempo Macena emitia apenas sons, ele imitava o som dos animais que ouvia na natureza, como se encontrasse nisso a sua liberdade e um pouco da sua identidade.

Sabiamente o Mestre Sombra, observando o silêncio do seu pupilo começou a ensinar-lhe uma arte que o daria contato consigo mesmo e com os seus ancestrais. A ideia do mestre ao apresentar a capoeira ao garoto era utilizar o silêncio dele para que ele se tornasse também uma sombra, silencioso, calmo, sábio e astuto. O garoto absorvia cada palavra do seu tio, aprendia com ímpeto todos os ensinamentos, não apenas os ensinamentos de luta, mas a liturgia dos rituais, os ensinamentos de vida e tudo que pudesse acrescentar a sua vida. Macena se tornara não apenas um grande lutador, mas um silencioso sábio, um guerreiro quase invencível e com uma agilidade inimaginável desenvolvida pela luta e pela dança que ele aprendeu com seu mestre.

No cair da noite, ao longo de sua juventude, Macena de sentava recostado em uma árvore, perto de um grande celeiro, de onde ouvia o bater dos tambores, ouvia a invocação dos espíritos dos seus ancestrais, cresceu se sentindo em casa em meio aos gritos e batuques oriundos dos tambores, agogos e chocalhos. Durante a noite, quando os tambores se calavam ele seguia no escuro, caminhava pela mata, estimulando seus sentidos, ouvia e sentia cheiros de forma invejavel. Ele se tornou capaz de ouvir até mesmo o rastejar de cobras e o silêncio quase impecável dos voos de corujas. No fim da sua caminhada noturna chegava ao topo de um pequeno monte, onde treinava seus movimentos e refletia em contato com a natureza.

Macena se tornou não apenas melhor que seu mestre na luta, com uma agilidade superior e até com domínio de movimentos superior, mas também quase igualava sua sabedoria, distinção e harmonia com o mestre, ele se tornou um Sombra como seu tio, mas a sabedoria do seu mestre também lhe ensinou que um homem sábio não para nos limites que encontra, mas supera as impossibilidades e continua seu caminho em busca de suas respostas, assim como ele fez anos atrás, com a morte de sua mãe.

No ultimo ritual que Macena participaria em sua vila, momentos antes de começarem os gritos das tambores o Mestre Sombra dirigiu suas ultimas palavras ao seu pupilo:

-Filho, os nosso ancestrais sempre viram em você a capacidade de um grande guerreiro, mas eu sempre tive receio, nunca duvidei do seu potencial, mas tenho medo das suas escolhas, é chegado o momento em que você deve escolher o seu próprio caminho. A todo homem é ofertado o bem e o mau, cabe ao homem escolher o que quer. Você vai ter oportunidades de escolher, quando você escolhe o bem, isso não anula a ação do mau, e nem a escolha do mau vai impedir a ação do bem, mas quando você escolher um, imediatamente você vai lutar contra o outro. Lembre-se meu filho, somente os fracos e tolos escolhem ficar imparciais, não ter partido, esse já são os piores dentre todos.

Após o belo discurso Macena foi para a roda, ao som forte dos tambores, que tocavam com mais vigor que qualquer outra noite, ele dançava e mostrava sua agilidade. Nesse ritual Macena abandonou seu antigo nome e passou a ser conhecido entre seus amigos e seus ancestrais por Mestre Sombra, o sábio seguidor dos ventos, em homenagem aquele que lhe ensinou tudo que um homem precisava saber para escolher e trilhar o seu próprio caminho. Aquela noite Macena sentiu algo muito forte, a presença de sua mãe, como se ela lhe quisesse lhe dizer que seu caminho estava apenas começando, que ele teria muito para batalhar e crescer, que os ventos iriam mudar e sua vida iria tomar um novo rumo.

domingo, 13 de março de 2011

Yuriz, o casulo maldito.

Ao longo da vida o homem se depara com situações que o condicionam a ser uma pessoa fria, calculista e exclusiva. Assim decorre a vida de Yuriz, vivendo em um lar marcado pelo descaso e brigas familiares, cobrado sempre a ser um homem que fosse sustentar a casa e a todos que precisassem dele. Ele vivia buscando para si ou em si um dom, um talento, sem saber o que iria encontrar, achando que nada sabia fazer. Completando seus dezoito anos ele abandona pela primeira vez alguém, sai de Judas, deixando para trás a sua, até então, família e tudo que o pudesse lembrar o monte de lixo que ele se sentia.

Ao começar o treinamento militar, Yuriz está determinado a ser o melhor, encontra em meio aos companheiros um novo exemplo de amizade e de família, se empenha e se esforça, termina o primeiro treinamento como o melhor da turma, mesmo após as torturas e destratos ao longo do treinamento, ele se sente útil pela primeira vez na vida, começa a ver na carreira militar uma possibilidade de encontrar os seus dons e talentos, como alguém que pode fazer algo por alguém e pela sociedade.

Tento sido um perito em tudo, um dos melhores recrutas da base em que servia, Yuriz recebe convite para novos treinamentos, cada vez mais duros e que o tornariam cada vez mais forte, com mais destreza e sagacidade. Os treinamentos estavam transformando este homem no ser que talvez ele sempre devesse ser, alguém que pudesse servir e fazer algo pelos outros. Em alguns anos ele é um sargento, extremamente bem condecorado e que passa agora pelo seu ultimo treinamento para fazer parte da equipe de maior poder intervencional nas forças armadas.

Os Espectros eram como os enviados da morte para buscar aqueles que o próprio anjo do fim mandava buscar. Para fazer parte dessa equipe no exercito eram pré requisitos perícia em armas, tiro, explosivo, direção, pilotagem, luta e algumas outras coisa que só os melhores soldados, aqueles que nascem para isso, conseguem desenvolver. O treinamento dos Espectros envolvem de dias sob fome e pouco sono em situações de deserto a sobrevivencia em selva, montanha, ambientes hostis e coisas mais. Esse treinamento não é apenas para preparar o corpo de forma a serem maquinas que resistam as situações mais extremas, mas para ir no psicologico dos homem, para torna-los verdadeiras maquinas de óbitos. Após o treinamento os soldados eram dados como mortos, suas identidades e passados apagados, um ano de isolamento para encontrar a morte e levar a morte. É como se esses soldados realmente morressem para poder matar.

Yuriz se viu cheio de dons, talentos e oportunidades, queria matar bandidos, chutar bundas e tornar o mundo um lugar melhor para os viventes. Em cada missão ele colocava seus instintos selvagens a prova e mostrava que não era um Espectro atoa. Tudo parecia perfeito, aquilo que ele sempre busco para sua vida, contudo Yuriz ainda guardava em si antigos valores, apesar de gostar de fazer o sangue de bandidos rolar, ele não admitia coisas como matar inocentes, desonrar seus próprios princípios.

Na operação Cães Negros, após a intervenção sobre um cartel de drogas e prostituição em uma fronteira do país, foi pedido pelo radio que os Espectros eliminassem também as famílias que estavam no lugar, ninguém devia sobreviver aquela operação. Aquela foi a primeira vez em que o dedo de Yuriz esteve travado diante do gatilho, algo o segurou diante da família do chefe da quadrilha. Ao olhar nos olhos daquela mãe e daquela criança, não vendo erro nelas, Yuriz não conseguiu atirar, a maquina estava dando pani. Ele deu dois tiros na parede atrás das duas, virou as costas, deu uma pequena pausa, voltou até elas e disse que ela deviam apenas deitar no chão, fingir que estavam mortas e pela manha sair dali, após isso ele saiu com um enorme peso da consciência.

Algumas semanas se passaram e a imagem daquelas duas não saiu da cabeça do soldado, ele se sentiu novamente com aquele sentimento pesado de inutilidade, estava a beira de um colapso, surtando, pensando que se tornará o oposto do que realmente era. Sem encontrar saída queria voltar para sua família, mas refletiu e pensou que jamais tivera realmente uma família, queria voltar para sua casa, mas a sua casa durante muito tempo foi o quartel e a Cidade de Judas poderia ser muito arriscado no momento. Apesar de ser um homem que não existia Yuriz era um desertor, ele não imaginava o que poderiam querer fazer com os desertores dos Espectros.

Após muita reflexão Yuriz resolve se esconder em uma cidade nos arredores de Judas, constroi uma espécie de casulo onde pode construir e equipar sua própria fortaleza, ele queria não apenas impedir que entrassem, mas também não queria sair mais dali, tinha medo do mal que ele mesmo poderia fazer fora daquele lugar. Yuriz se enclausurou em um mundo particular, buscava apenas se esconder e ficar alheio a tudo, não queria mais tomar partido em nada que pudesse acontecer.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Nasce Bruh, a vingativa

O silêncio da noite esconde medos e desejos de vingança que nem mesmo os mais antigos e mais sábios podem imaginar ou descrever. Assim, no silêncio sombrio de uma noite nasceria de forma igualmente silenciosa uma das mulheres mais temidas por aqueles que não sabem o que a noite lhes preserva. Ela não desejaria ser uma heroína, menos ainda uma vilã, a escuridão só lhe traria os desejos de vingança e a capacidade de aniquilar que ninguém jamais tivera vislumbrado em Cidade de Judas.

A doce Meneguelli era apenas uma menina adorável, jovem como uma raposa no alge da sua caçada, desde criança incitada por seus pais a fazer lutas, eles queriam que ela fosse o tipo de mulher que pode se virar sozinha. Coisas que pais zelosos fariam por uma filha única e muito bem cuidada. Em resposta a tamanha apreço, aulas de ballet, melhor educação possível, viagens e coisa mais Meneguelli era extremamente devota e apaixonada por seus pais. Sua família era aquilo que havia de maior valor em sua vida.

Eles viviam em uma grande mansão na zona Oeste de Judas, em um bairro nobre. Meneguelli era uma pessoa de vida social bastante agitada, acompanhava seu pai em jantares, reuniões, aparições publicas e tudo mais, ostentava tamanho status em virtude do pequeno império constituído pelo seu pai, o poderoso e generoso Senhor Meneguelli. Tamanha agitação e popularidade sempre foi causa de muitas preocupações entorno da segurança de toda família.

Em uma noite de outono Meneguelli teve o seu primeiro contato com o Senhor Maximus, um famoso mafioso de Judas, o mesmo a quem ela viria a conhecer como "O Pai". Após um jantar entre políticos e personalidades onde o Senhor Meneguelli procurava, em conversas informais, promover um acordo entre os principais poderes de Judas para tentar melhorar a segurança publica da cidade, acordo este que já vinha chamando atenção de pessoas que não compartilhavam tamanho empenho em virtude da pacificação, o Senhor Meneguelli sofreria um ataque que o levaria a óbito, mas que acima de tudo acabaria de uma vez por todas aquela doçura e simplicidade que se encontrava no olhar da até então menina Meneguelli.

Em um carro logo atrás do carro dos seus pais a menina seguia para sua casa, quando parava no sinal de uma das esquinas da cidade ela viu o carro do seu pai seguir e para na esquina seguinte, onde fora abordado por um grupo de cinco homens fortemente armados que atiraram em to do carro do seu pai, vendo esta cena, impensadamente a Meneguelli saiu do carro pela porta de trás e correu o máximo que pode, como se pudesse impedir a cena que via ao longe. Antes que a menina pudesse percorrer metade dos quinhentos metros até o carro do seu pai os homem já haviam pego tudo que podiam levar e fugido como zebras que correm de um leão faminto. Quando chega ao carro transformado em peneira a menina, que já sentia em si uma brusca metamorfose, via apenas a face irreconhecivel dos seus pais.

Instantes depois, com a chegada da policia a menina apenas sentou-se ao lado do carro, olhando ainda para dentro do veiculo, a menina não demonstrava reação. O olhar congelado e seco naquela noite pesada e fria dizia para aqueles que pudessem entender que ela não seria mais uma menina apenas, mas que iria fazer algo que alguém jamais poderia imaginar, a menina se tornava uma mulher, uma vingadora, mas acima de tudo aquilo que seu pai sempre quisera que ela fosse, mas que ele mesmo não podia imaginar como seria, Meneguelli se tornava uma guerreira que iria lutar, se alimentando do combustível mais insano e vil que se conhece, abastecida de vingança e ódio, naquela noite ela decidiu que iria atrás de todos, não apenas daqueles que mataram seus pais, mas iria atrás de cada olhar frio e vazio de mentes marginais e vazias. Naquela mesma noite, ao sair da festa o Senhor Maximus passou pelo local do crime, ainda ao longe observava aquela metamorfose seca, não via nem mesmo uma lágrima cair dos olhos daquela mulher, ele sabia que algo tinha mudado naquele dia, mesmo sem conhecer a menina que antes existia, ele via naquele olhar algo que queria aproveitar.

Passados quase seis meses da morte de seus pais, Meneguelli julgou que já era tempo de começar a agir, não podia mais guardar em si a sede de vingança. A inconclusão do caso dos seus pais aumentava ainda mais a sua sede, o seu ódio. Ela então se vestiu na mesma roupa que usava para seus treinos de luta, armada com uma pistola semi-automática presa a cintura e duas facas amarradas nas cochas ela ia atrás daqueles que achava que merecia ser punido. Saia assim, vulnerável e impiedosa para caçar, como uma leoa que precisa alimentar sua família, mas a única que aquela mulher vingativa precisava alimentar era sua própria sede vingativa.

Ela saiu então andando pelas ruas, com um casaco que lhe cobria a cabeça, mas dando um jeito que deixa um belo decote amostra, o que atraia os olhares embabacados dos mais bárbaros homens que Judas conhecia. Entrando por um beco escuro ela percebia ser seguida por três homens. Ela não queria saber quem eram, o tamanho, sua historia ou seu passado, ela apenas queria aniquilar marginais. Quando um dos homens se aproximou ela abaixou lentamente as mãos, foi então que ela ouviu um dele falar:

- E então gatinha, vem pra cá, vamos curtir um pouco - os outros homens apenas concordavam e gritavam.

A Meneguelli seguindo em silêncio e com a cabeça baixa ia deixando os homens irritados. Quando chegaram em um ponto do beco onde ninguém de fora podia ver nada, os homens voaram para cima dela, então ela, rápida como uma corça, sacou suas facas e em movimentos rápidos e silenciosos como uma coruja os cortou e os matou de forma rápida. Mas ela não queria apenas mata-los, mas queria mostrar que ela esteve ali, como alguém que espera marcar território. Então ela rasgou a camisa de um deles e deixou no peito daquele que ainda respirava a sua marca, o nome pelo qual aqueles que a deviam temer iriam chama-la, "Bruh".

Apartir desta noite, em Judas, os bandidos temeriam a noite e a escuridão.

Na manha seguinte, sem provas, sem maiores rastros que a policia pudesse seguir, os jornais publicavam em suas manchetes que uma nova justiceira ou uma bandida surgia na cidade, aquele que todos podia chamar de "Bruh", aquela que vem na calada da noite e arrasa homens como se fossem ratos mesquinhos.