quinta-feira, 17 de março de 2011

Mestre Sombra, o sabio dos ventos

A pessoa não escolhe ou pede para nascer, mas sempre chega um momento na vida, no qual você escolhe se quer viver ou não. Chega sempre o momento ou você escolhe como quer viver e como quer morrer. Uma decisão sabia a esse respeito depende não apenas do que você quer, ou do meio em que vive, mas da forma como você se conhece, a forma como você se encontra e se entende.

Macena nasceu em um quilombo, no interior do país, muito distante de Judas, mas existem coisas que parecem predestinadas, historias escritas esperando apenas o tempo para se tornar realidade. Filho de um homem que ele nem mesmo sabia o nome, Macena cresceu apenas sob os cuidados de sua mãe, uma mulher pura, que apesar de pouca instrução era muito sabia. Até os seus quatorze anos Macena ouvia diariamente a pergunta humilde de sua mãe, "filho, quem é você?". A mãe dele viera a falecer sem que ele pudesse encontrar a resposta, ou mesmo entender o que ela realmente queria dizer com esta pergunta.

Com a morte da mãe Macena simplesmente se calou, não falava mais, não chorava, não ria, apenas observava a vida a seu redor. Tendo aquela sutil pergunta ecoando na sua mente, com a imagem intacta de sua mãe na memória. O silêncio daquele jovem era diferente, não era um silêncio de medo ou submissão, mas apenas o silêncio que observava, que buscava em cada sutil ação as resposta para a pergunta da mãe e que agora se tornou sua própria pergunta.

Quando a mãe de Macena faleceu um tio que vivia em uma cidade próximo resolveu assumir a educação daquele adolescente, ele seria não apenas o tio, mas o Mestre Sombra, aquele que ensinaria a Macena, não quem ele é, mas como ele encontraria as suas respostas, mesmo sem saber os questionamentos que rondavam a mente do jovem. Em todo o tempo de instrução e de vida juntos, Macena jamais trocou uma palavra com o seu mestre, apenas os olhares e ouvidos atentos naquele que lhe ensinava. Com o passar do tempo Macena emitia apenas sons, ele imitava o som dos animais que ouvia na natureza, como se encontrasse nisso a sua liberdade e um pouco da sua identidade.

Sabiamente o Mestre Sombra, observando o silêncio do seu pupilo começou a ensinar-lhe uma arte que o daria contato consigo mesmo e com os seus ancestrais. A ideia do mestre ao apresentar a capoeira ao garoto era utilizar o silêncio dele para que ele se tornasse também uma sombra, silencioso, calmo, sábio e astuto. O garoto absorvia cada palavra do seu tio, aprendia com ímpeto todos os ensinamentos, não apenas os ensinamentos de luta, mas a liturgia dos rituais, os ensinamentos de vida e tudo que pudesse acrescentar a sua vida. Macena se tornara não apenas um grande lutador, mas um silencioso sábio, um guerreiro quase invencível e com uma agilidade inimaginável desenvolvida pela luta e pela dança que ele aprendeu com seu mestre.

No cair da noite, ao longo de sua juventude, Macena de sentava recostado em uma árvore, perto de um grande celeiro, de onde ouvia o bater dos tambores, ouvia a invocação dos espíritos dos seus ancestrais, cresceu se sentindo em casa em meio aos gritos e batuques oriundos dos tambores, agogos e chocalhos. Durante a noite, quando os tambores se calavam ele seguia no escuro, caminhava pela mata, estimulando seus sentidos, ouvia e sentia cheiros de forma invejavel. Ele se tornou capaz de ouvir até mesmo o rastejar de cobras e o silêncio quase impecável dos voos de corujas. No fim da sua caminhada noturna chegava ao topo de um pequeno monte, onde treinava seus movimentos e refletia em contato com a natureza.

Macena se tornou não apenas melhor que seu mestre na luta, com uma agilidade superior e até com domínio de movimentos superior, mas também quase igualava sua sabedoria, distinção e harmonia com o mestre, ele se tornou um Sombra como seu tio, mas a sabedoria do seu mestre também lhe ensinou que um homem sábio não para nos limites que encontra, mas supera as impossibilidades e continua seu caminho em busca de suas respostas, assim como ele fez anos atrás, com a morte de sua mãe.

No ultimo ritual que Macena participaria em sua vila, momentos antes de começarem os gritos das tambores o Mestre Sombra dirigiu suas ultimas palavras ao seu pupilo:

-Filho, os nosso ancestrais sempre viram em você a capacidade de um grande guerreiro, mas eu sempre tive receio, nunca duvidei do seu potencial, mas tenho medo das suas escolhas, é chegado o momento em que você deve escolher o seu próprio caminho. A todo homem é ofertado o bem e o mau, cabe ao homem escolher o que quer. Você vai ter oportunidades de escolher, quando você escolhe o bem, isso não anula a ação do mau, e nem a escolha do mau vai impedir a ação do bem, mas quando você escolher um, imediatamente você vai lutar contra o outro. Lembre-se meu filho, somente os fracos e tolos escolhem ficar imparciais, não ter partido, esse já são os piores dentre todos.

Após o belo discurso Macena foi para a roda, ao som forte dos tambores, que tocavam com mais vigor que qualquer outra noite, ele dançava e mostrava sua agilidade. Nesse ritual Macena abandonou seu antigo nome e passou a ser conhecido entre seus amigos e seus ancestrais por Mestre Sombra, o sábio seguidor dos ventos, em homenagem aquele que lhe ensinou tudo que um homem precisava saber para escolher e trilhar o seu próprio caminho. Aquela noite Macena sentiu algo muito forte, a presença de sua mãe, como se ela lhe quisesse lhe dizer que seu caminho estava apenas começando, que ele teria muito para batalhar e crescer, que os ventos iriam mudar e sua vida iria tomar um novo rumo.

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