
Nos mais pacatos meios se escondem os monstros mais cruéis e os mais implacáveis justiceiros e vingadores. Nasci na cidade, Marcellus Valério, criado dentro dos valores mais cristãos conhecidos pela sociedade. Se tornando um rapaz justo, conhecedor da "verdade", como alguém que devesse seguir as mais severas leis, divinas e humanas, para ter uma boa vida, um bom descanso no fim desta. Marcellus entendia que deveria viver com prudência, justiça e autoconsciência. Lutar por essa mesma justiça era fundamental, ser bom não bastava, precisava fazer o bem aos que o rodeavam e buscar sempre mais pessoas a esta bondade que ele imaginava que devia estar no interior de toda pessoa. Intrigado ele saiu de casa aos dezesseis anos, querendo se conhecer melhor e amadurecer suas idéias filosofias.
Em uma pequena e pacata cidade distante, a cidade Dom Corleone, Marcellus começa o seu processo de entendimento do mundo, da vida, leitura de alguns livros, histórias do passado, ficções inspiradoras e uma forte literatura que o transformaria naquele que lutaria por um novo ideal de justiça e liberdade. Na cidade, por não ter contato com as outras pessoas, ser um jovem silencioso e quieto, quase reprimido, ele passou a ser conhecido pelo que o observavam, ou os que não o costumavam a ver pelas ruas, por Jaguar, todos imaginavam que ele fosse um jovem com alguma história, algo como um monstro que tivera sido enclausurado no homem por conta de violências passadas. Mal sabiam eles que o monstro jamais tivera se mostrado, mas estava mesmo enclausurado, esperando o soar dos sinos da igreja dizendo a hora de se rebelar.
Em suas leituras e na sua vasta biblioteca criada com o passar do tempo, Marcellus começou a ver que não podia se conter, não podia ser apenas um homem que luta por justiça por meios burocráticos e que talvez esses meios nem sejam eficientes. Após alguns anos afastado dos valores e das realidades ensinadas por sua família, ele começou a se soltar, perceber em si um ser capaz de mudar, de revolucionar, mas que acima de tu devia ser ativo, dar a cara a tapa e defender aqueles que precisam de ajuda. Tanto silêncio e isolamento criaram um homem de boa cultura, que conhecia muito, mas criaram também um monstro vingativo e impetuoso.
Um dia, bebendo sozinho em um bar, o já não tão jovem rapaz olhava uma discussão em casal, casal este que ele observava do sótão de sua casa, assim como toda a cidade. Durante a discussão o homem saca uma arma, aponta para a mulher, não chega a atirar, mas dá uma coronhada na dama. Com a frieza de um verdadeiro jaguar que observa sua presa, Marcellus saiu do bar, foi até sua casa e empunhou um punhal que ganhou do seu avô. Sentou-se no sótão a olhar a rua e esperou, sentado como se todo o tempo do mundo fosse apenas um trem passando pela estação, movido por uma espécie de sentimento de médico e monstro. Quando o homem saiu sozinho do bar da cidade, Marcellus desceu a escada, colocou o punhal na parte de trás da cintura, abriu a porta e a fechou, como se estivesse apenas indo fazer uma caminhada noturna, apenas para pensar um pouco. Confirmou que o homem fazia o seu caminho normal até sua casa, passando por uma rua mal iluminada, ao entrar naquela rua, um dos dois, Marcellus ou o homem não sairia vivo dali.
Ao entrar pela rua, sem olhar envolta, apenas pensando na sua presa, Marcellus empunhou com firmeza o nobre punhal e se dirigiu de forma rápida e impetuosa até o homem, sem pensar lhe fez duas incisões, uma entra a quarta e a quinta costela direita e outra na parte de trás do braço do homem que caiu imediatamente, já com dificuldades de respirar. Marcellus o segurou pelos cabelos, olhando nos olhos lhe disse: "Você não está morrendo atoa, você vai morrer, por ser um mau marido, não saber usar sua inteligência e sabedoria, agredir sua mulher e principalmente, porque você é um monstro vil que não merece viver em meio a pessoas."
Após estas palavras Marcellus introduziu lentamente o punhal no pescoço do homem, pegou a arma que ele levava na cintura, como sinal de virilidade, ou soberania. Pegou novamente a cabeça do homem que já agonizava e o fez olhar uma ultima vez para ele, como quem quer que o homem saiba quem o esta matando. Colocou a arma na mão esquerda do homem, a colocou na altura da cabeça e disparou. Após verificar que o homem já não respirava e antes que toda a cidade pudesse se juntar para constatar o acontecido, ele caminhou até a casa do homem, olhou em direção a casa, sem palavras, aquele olhar já dizia que o Jaguar havia justificado o sofrimento daquela mulher e daquela família. Passada algumas horas, de forma discreta como sempre ele voltou para casa, como se nada tivesse acontecido.
Na manhã seguinte o senhor Valério se apresentou no café da cidade, comeu sem falar nada, mas sentindo com mais profundidade o sabor de tudo que comia. Enquanto desfrutava de sua refeição ele ouvia os comentários das pessoas que falavam da morte cruel e fria que ocorrera na noite passada, sem fazer a menor idéia do que poderia ter acontecido. Alguns instantes a mulher, como que por uma questão de educação veio até o senhor Valério lhe convidar para o enterro de seu marido. Com a ajuda de sua leitura sobre psicologia, ele percebeu no olhar daquela mulher um ar de satisfação, apesar dos olhos ainda vermelhos pelas lágrimas. No enterro, como a fera após se alimentar, o culto homem olha ao longe a cidade amedrontada sem entender os motivos da morte, mas sente dentro de si um sentimento de arte recém terminada.
Com o passar do tempo, sem saber exatamente o que aconteceu naquela noite, ou o porque da morte cruel e macabra daquele homem, a cidade cria uma série de possibilidades, mas sem jamais cogitar o nome do senhor Valério, um homem que parecia nem mesmo fazer parte da cidade, apenas com algumas poucas aparições publicas, mas nenhuma atividade cidadã. Mesmo assim Marcellus e o Jaguar se sentiram como se já tivessem feito tudo que deveriam fazer naquela cidade, já havia se encontrado e percebido o que devia fazer no resto ou em toda sua vida. Durante a noite ele saiu de casa, apenas com algumas roupas e o seu afiado punhal que serviria como o martelo no julgamento dos que abusassem ou entendessem de forma errada a sua liberdade. Ele passou uma ultima vez na frente da casa da mulher que salvou, ela na janela o viu, direcionou a ele um olhar... um olhar profundo, quase como se dissesse que sabia que ele era mesmo o homem que a teria salvo do monstro que vivia com ela, mas não olhava com condenação, mas como uma forma de agradecimento. Com aquele olhar ele começou uma viagem que ainda o levaria a redescobrir algumas vezes o conceito de liberdade, justiça e pureza.


